{"id":198,"date":"2016-02-29T08:00:14","date_gmt":"2016-02-29T08:00:14","guid":{"rendered":"https:\/\/inclusaonapratica.wordpress.com\/?p=198"},"modified":"2016-02-29T08:00:14","modified_gmt":"2016-02-29T08:00:14","slug":"aluno-com-sindrome-de-down","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.inclusaonapratica.com.br\/index.php\/2016\/02\/29\/aluno-com-sindrome-de-down\/","title":{"rendered":"O ALUNO COM S\u00cdNDROME DE DOWN \u00c9 CAF\u00c9 COM LEITE?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\">Como voc\u00ea compreende o desenvolvimento educacional do aluno com S\u00edndrome de Down? J\u00e1 parou para pensar na urg\u00eancia de rever os crit\u00e9rios escolares utilizados na inclus\u00e3o escolar do aluno com S\u00edndrome de Down?<\/p>\n<p>Trabalhar com estudantes com Down, assim como com qualquer outra defici\u00eancia, exige de n\u00f3s professores um olhar atento para n\u00e3o negligenciarmos as adapta\u00e7\u00f5es curriculares bem como o ritmo do desenvolvimento intelectual.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E aqui \u00e9 importante lembrar que o aluno deve ter acesso a todas as oportunidades ofertadas a qualquer estudante, o que vai distinguir seu atendimento dos demais \u00e9 a oferta do Atendimento Educacional Especializado. \u00c9 ele que garante a identifica\u00e7\u00e3o da metodologia educacional que melhor se aplique ao aluno.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por isso, \u00e9 muito importante tratar o aluno com S\u00edndrome de Down com respeito e responsabilidade. Pois embora seu desenvolvimento seja num ritmo diferente dos demais, ele acontece. Jamais podemos considerar que um aluno \u00e9 caf\u00e9 com leite.<\/p>\n<p>No texto originalmente publicado na p\u00e1gina do Inclusive esse assunto \u00e9 muito bem retratado, acompanhe:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Lembra daquele menino que era desajeitado, mas insistia em jogar futebol? O professor colocava o garoto em um time e l\u00e1 ficava ele, correndo e esperando que algu\u00e9m lhe passasse a bola. E ningu\u00e9m passava. Ele estava no jogo, mas n\u00e3o estava jogando. Ele era \u201ccaf\u00e9 com leite\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ser \u201ccaf\u00e9 com leite\u201d tem muitos efeitos sobre a crian\u00e7a ou jovem. O primeiro \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o da condescend\u00eancia e baixa expectativa: \u201capesar de saber que voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 capaz, eu deixo voc\u00ea participar\u201d, o que traz como consequ\u00eancias imediatas a baixa autoestima e a desmotiva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O mesmo pode acontecer com o aluno com alguma defici\u00eancia em classe regular, quando seu professor o v\u00ea como uma crian\u00e7a que est\u00e1 ali, mas n\u00e3o conseguir\u00e1 aprender. Este educador adota esta postura geralmente com a inten\u00e7\u00e3o de proteger ou evitar frustra\u00e7\u00f5es para seu aluno por estar mais focado em suas dificuldades que em suas compet\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas a crian\u00e7a que percebe que est\u00e1 sendo tratada de maneira desproporcional a sua capacidade, esta sim se frustra, se entristece, se desinteressa. Ela estar\u00e1 no jogo, mas n\u00e3o estar\u00e1 jogando.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para que o aluno com s\u00edndrome de Down\u00a0deixe de ser ou n\u00e3o se torne um aluno \u201ccaf\u00e9 com leite\u201d, para que ele seja um aluno que, al\u00e9m de estar na escola, participa e aprende, h\u00e1 que se refletir sobre um conceito b\u00e1sico: compromisso. Um compromisso que deve partir da escola, da fam\u00edlia e do pr\u00f3prio aluno. Se qualquer um destes elementos encarar a aprendizagem de forma leviana e indiferente, n\u00e3o h\u00e1 como se alcan\u00e7ar sucesso.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Chega de procurar culpas e desculpas para as dificuldades de aprendizagem de crian\u00e7as com s\u00edndrome de Down. A fam\u00edlia culpa a escola, a escola culpa o professor, o professor culpa a fam\u00edlia e todos t\u00eam como desculpa a defici\u00eancia, e desperdi\u00e7am tempo, energia e afeto que poderiam investir na aprendizagem da crian\u00e7a, baseados em suas possibilidades.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Muitas vezes, as fam\u00edlias depositam na escola e nos terapeutas a fun\u00e7\u00e3o de ensinar, de impor regras sociais e valores, quando deveriam participar efetivamente tanto na constru\u00e7\u00e3o realista das expectativas, quanto na constru\u00e7\u00e3o da aprendizagem de seu filho. Mostrar \u00e0 crian\u00e7a o quanto aprender \u00e9 importante, valorizar as aquisi\u00e7\u00f5es e dar funcionalidade aos conte\u00fados trabalhados na escola, demonstra a ela que sua aprendizagem est\u00e1 sendo encarada (e aguardada) de forma s\u00e9ria e coerente.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Algumas atitudes dos familiares, muitas vezes inconscientes, camuflam a postura \u201ccaf\u00e9 com leite\u201d: supervalorizar o fato de que a escola \u201caceitou\u201d seu filho , deixar que falte por motivos pouco importantes, fazer a tarefa por ele, n\u00e3o exigir dele o que exigiria se n\u00e3o tivesse a s\u00edndrome\u00a0(se esfor\u00e7ar, arrumar seu pr\u00f3prio material, respeitar hor\u00e1rios da escola, tirar boas notas, etc.). Ningu\u00e9m coloca um filho na escola sem esperar e cobrar que ele aprenda. Porque deveria acontecer assim com crian\u00e7as com s\u00edndrome de Down? A crian\u00e7a \u00e9 a primeira a captar esta postura condescendente, e a fazer uso dela em benef\u00edcio pr\u00f3prio.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A crian\u00e7a \u00e9 fruto do meio em que vive, dos est\u00edmulos que lhe s\u00e3o oferecidos, dos modelos que recebe, e vai dar respostas correspondentes ao que se espera dela.\u00a0Se a crian\u00e7a vive submetida a baixas expectativas, sendo sempre tratada como crian\u00e7a ou aprendiz incapaz, ela vai continuar sendo crian\u00e7a ou aprendiz incapaz, vai se desenvolver pouco emocional e intelectualmente. O interesse do aluno em aprender \u00e9 fundamental e muitas vezes subestimado. Pais e professores constroem esta motiva\u00e7\u00e3o que leva o filho ou o aluno a querer aprender atrav\u00e9s do modelo, da rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a, passando pela autopercep\u00e7\u00e3o e pela autoestima, levando a crian\u00e7a a conhecer e assumir seu lugar em casa, na escola e na vida.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 preciso que a crian\u00e7a ou o jovem estejam comprometidos com sua pr\u00f3pria aprendizagem, pois para aprender \u00e9 preciso querer e de nada vale ser o deposit\u00e1rio de informa\u00e7\u00f5es n\u00e3o desejadas e n\u00e3o utilizadas. O aluno com s\u00edndrome de Down\u00a0precisa (ou melhor, todos os alunos precisam) saber por que \u00e9 importante aprender, onde se pretende chegar com tantas aulas, atividades, tarefas, conte\u00fados e provas. Um sentido para sua aprendizagem, algo que todo e qualquer aluno deveria ter.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Cada crian\u00e7a, tenha ela s\u00edndrome de Down\u00a0ou n\u00e3o, \u00e9 um indiv\u00edduo com suas for\u00e7as e fraquezas, seu pr\u00f3prio potencial e seu \u00edndice de desenvolvimento. Quando ela passa a viver exclusivamente em fun\u00e7\u00e3o do que esperam dela ou da imagem que constru\u00edram para ela, se destitui de sua identidade pr\u00f3pria e suas chances de sucesso, de autorrealiza\u00e7\u00e3o e de felicidade se tornam menores. \u00c9 preciso deixar que a crian\u00e7a suporte e vivencie seus pr\u00f3prios riscos, tanto os acertos quanto os erros, para que encontre o equil\u00edbrio necess\u00e1rio para seguir adiante baseada no pr\u00f3prio conhecimento. Acreditar no que \u00e9 poss\u00edvel e real movimenta esquemas cerebrais que fazem com que as coisas aconte\u00e7am, porque envolve o indiv\u00edduo emocionalmente na situa\u00e7\u00e3o, o faz crescer e ir em busca dos resultados, superando seus obst\u00e1culos e limita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A escola tem papel fundamental na forma\u00e7\u00e3o de um indiv\u00edduo aut\u00f4nomo, tenha defici\u00eancia\u00a0ou n\u00e3o. Juntamente com a fam\u00edlia daquele aluno, a escola estar\u00e1 formando um cidad\u00e3o com direitos e deveres. E, como tal, como um aluno que tem o direito da aprender, mas que tamb\u00e9m tem o dever de se empenhar para isso, \u00e9 que o aluno com s\u00edndrome de Down\u00a0deve ser encarado. Os princ\u00edpios da pedagogia atual dizem que todas as pessoas podem ser inteligentes, porque a intelig\u00eancia n\u00e3o \u00e9 inata, mas se constr\u00f3i. Conhecemos hoje tamb\u00e9m o conceito de intelig\u00eancias m\u00faltiplas, que demonstra que cada um tem seu canal de acesso e de express\u00e3o de habilidades. Ou seja, todos aprendem. A intelig\u00eancia \u00e9 ativa, m\u00f3vel, modific\u00e1vel pela a\u00e7\u00e3o externa, e n\u00e3o determinada apenas por fatores org\u00e2nicos, gen\u00e9ticos ou heredit\u00e1rios. Pessoas com s\u00edndrome de Down, mesmo apresentando algum tipo de atraso cognitivo, desenvolvem suas intelig\u00eancias quando devidamente mediadas por educadores, familiares e terapeutas. E \u00e9 nisso que o professor deve investir: em acreditar nas capacidades do aluno em aprender e em suas capacidades como professor, de fazer parte desse processo da constru\u00e7\u00e3o desse\u00a0caminho de aprendizagem. .<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Muitas vezes, por subestimar ou para poupar um aluno que acredita n\u00e3o ser capaz de aprender, o professor oferece conte\u00fados muito aqu\u00e9m de suas capacidades ou totalmente diferentes daqueles abordados pelos colegas, caindo inevitavelmente na desmotiva\u00e7\u00e3o.\u00a0Se a uma crian\u00e7a n\u00e3o solicitamos sempre algo novo, proporcional \u00e0s suas capacidades, ela regride para comportamentos mais f\u00e1ceis e mais conhecidos. Devemos solicitar \u00e0s crian\u00e7as algo mais daquilo que j\u00e1 sabem para estimular a transfer\u00eancia das pr\u00f3prias habilidades para novos campos de experi\u00eancia. Isto s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel quando h\u00e1 confian\u00e7a nas possibilidades da crian\u00e7a, confian\u00e7a realista que n\u00e3o superestime, mas nem menos subestime o n\u00edvel no qual ela pode operar e n\u00e3o impe\u00e7a seus pr\u00f3prios interesses e motiva\u00e7\u00f5es de se manifestar.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Como em casa, a vis\u00e3o de \u201ccaf\u00e9 com leite\u201d que a escola atribui ao aluno se revela de diferentes formas: permitindo ao aluno com s\u00edndrome de Down\u00a0atitudes que n\u00e3o permitiria aos outros (sair da sala, ficar deitado no ch\u00e3o, mexer no material dos colegas, n\u00e3o cumprir com combinados, ir in\u00fameras vezes ao banheiro, etc.), n\u00e3o mandar tarefas para casa, n\u00e3o cobrar normas ou atividades solicitadas a todos, oferecer atividades muito f\u00e1ceis, dar um jeitinho ou aceitar desempenhos muito baixos. Essas atitudes de desconsidera\u00e7\u00e3o desmerecem seu potencial e funcionam como freio, um congelamento no movimento da crian\u00e7a em atuar de forma ativa em sua pr\u00f3pria vida. Mais uma vez, o aluno percebe a postura condescendente dos que o cercam, e responde no mesmo n\u00edvel de expectativa, entendendo que ter a s\u00edndrome\u00a0lhe autoriza a tudo e n\u00e3o lhe exige aprendizagem.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ter um filho ou aluno \u201ccaf\u00e9 com leite\u201d resulta em economia na expectativa e no investimento, e numa consequente resposta econ\u00f4mica por parte da crian\u00e7a, ou seja, ningu\u00e9m faz tudo o que pode ou precisa ser feito \u2013 nem ela, nem seus pais, nem seus educadores. Encarar o aluno com s\u00edndrome de Down\u00a0de maneira s\u00e9ria significa que o aluno vai dar o m\u00e1ximo de si, enquanto a escola e o educador estar\u00e3o dando o m\u00e1ximo deles tamb\u00e9m. Ningu\u00e9m estar\u00e1 fazendo de conta, nem que aprende, nem que ensina. A crian\u00e7a com s\u00edndrome de Down\u00a0merece e pode estar no jogo.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Por: Josiane Mayr Bibas e Maria Izabel Valente<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><em>Texto publicado originalmente no <a href=\"http:\/\/www.inclusive.org.br\/?p=22174\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Inclusive<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como voc\u00ea compreende o desenvolvimento educacional do aluno com S\u00edndrome de Down? J\u00e1 parou para pensar na urg\u00eancia de rever os crit\u00e9rios escolares utilizados na inclus\u00e3o escolar do aluno com S\u00edndrome de Down? 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